Em comunidade carioca, papa denuncia desigualdade do mundo
EFE – 18 horas atrás
Rio de Janeiro, 25 jul (EFE).- O papa Francisco disse nesta
quinta-feira, durante sua visita à comunidade de Varginha, no Complexo
de Manguinhos, no Rio de Janeiro, que "ninguém pode permanecer
indiferente diante das desigualdades que existem no mundo" e pediu que o
poder público se esforce para construir um mundo mais justo e que os
jovens lutem contra a corrupção e a injustiça.
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Em
uma manhã fria e chuvosa e em meio a fortes medidas de segurança, com
policiais posicionados com armas de precisão e com o apoio de
helicópteros, o papa visitou o complexo de favelas de Manguinhos, na
zona norte do Rio de Janeiro, um local que até o final do ano passado
era controlado por grupos de criminosos e narcotraficantes.
"Eu gostaria de fazer uma chamada aos que têm mais recursos, aos
poderes públicos e a todos os homens de boa vontade comprometidos com a
justiça social: que não se cansem de trabalhar por um mundo mais justo e
mais solidário. Ninguém pode permanecer indiferente diante das
desigualdades que ainda existem no mundo", afirmou o papa.
O pontífice pediu que todos contribuíssem para pôr fim às injustiças sociais.
"Não é a cultura do egoísmo, do individualismo, que frenquentemente
regula nossa sociedade, aquela que constrói e conduz a um mundo mais
habitável, mas sim a cultura da solidariedade; ver no outro não um
concorrente ou um número, mas um irmão", ressaltou.
O papa também se dirigiu aos jovens, afirmou que eles "possuem uma
sensibilidade especial frente às injustiças" e que se sentem frustrados
com os casos de corrupção, "com pessoas que, em vez de buscar o bem
comum, procuram, seu próprio benefício".
"Também para vocês e para todas as pessoas repito: nunca desanimem,
não percam a confiança, não deixem que se apague a esperança. A
realidade pode mudar, o homem pode mudar. Procurem ser vocês os
primeiros a praticar o bem, a não se acostumarem ao mal, mas a
vencê-lo", disse Francisco.
O papa destacou os esforços que a sociedade brasileira está fazendo
para integrar os que mais sofrem e são mais necessitados, mas disse que
"nenhum esforço de pacificação será duradouro, não haverá harmonia e
felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que
abandona na periferia parte de si mesma".
O papa defendeu a vida, disse que é um "dom de Deus, um valor que
deve ser sempre tutelado e promovido; a família, fundamento da
convivência e remédio contra a desagregação social; a educação integral,
que não se reduz em uma simples transformação de informações com o
simples fim de gerar lucro".
Na comunidade visitada, vivem cerca de duas mil pessoas, a maioria em condições precárias.
O papa, que chegou em um pequeno carro e depois se transferiu para o
papamóvel, caminhou pelas ruas da comunidade sob a chuva e foi seguido
por centenas de pessoas. Francisco entrou em uma casa para cumprimentar
seus moradores e depois se reuniu com a comunidade em um campo de
futebol.
Também entrou na pequena igreja construída na favela, onde abençoou o altar e deixou um cálice de presente.
Francisco não é o primeiro papa que visita uma
comunidade. O papa João Paulo II foi ao Morro do Vidigal em sua primeira
visita ao Rio. EFE
25/07/2013 11h58
- Atualizado em
25/07/2013 13h39
Papa fala de corrupção e diz a jovens para 'não se acostumarem ao mal'
Pontífice andou de papamóvel e discursou em comunidade de Manguinhos.
Francisco também rezou em capela, cumprimentou fiéis e visitou uma casa.
Papa Francisco agradece a recepção dos brasileiros em discurso no Rio (Foto: Reprodução/GloboNews)
O Papa Francisco falou sobre corrupção nesta quinta-feira (25), em
discurso na comunidade de Varginha, em Manguinhos, no Rio de Janeiro, e
pediu aos jovens que "nunca desanimem, não percam a confiança, não
deixem que se apague a esperança" frente às "notícias que falam de
corrupção, com pessoas que, em vez de buscar o bem comum, procuram o seu
próprio benefício".
A realidade pode mudar, o homem pode mudar. Procurem ser vocês os
primeiros a praticar o bem, a não se acostumarem ao mal, mas a vencê-lo"
Papa Francisco
Menino abraça o Papa durante visita a comunidade
em Manguinhos (Foto: Reprodução GloboNews)
Somos pobres, pequenos, esquecidos"
Jovem da comunidade
"A realidade pode mudar, o homem pode mudar. Procurem ser vocês os
primeiros a praticar o bem, a não se acostumarem ao mal, mas a
vencê-lo", afirmou o pontífice.
(
O G1 acompanha em tempo real o dia do Papa no Rio de Janeiro.)
Após deixar o Palácio da Cidade, na Zona Sul,
onde abençoou atletas
e bandeiras olímpicas e paralímpicas, além de receber a chave da cidade
do Rio de Janeiro, o pontífice seguiu em carro fechado até Manguinhos.
Lá, andou de papamóvel pela comunidade, cumprimentou e abençoou fiéis e
beijou crianças.
Em sua chegada a Varginha, o Papa Franciso recebeu um colar com as
cores do Brasil, que ele vestiu sobre suas vestes sacerdotais. Depois
fez uma oração na capela do conjunto de favelas de Manguinhos, com uma
fala breve. Antes de discursar em um campo de futebol, ele ainda visitou
uma família da comunidade, permanecendo cerca de 10 minutos dentro da
casa.
'Mundo mais justo e mais solidário'
Francisco afirmou ainda que os brasileiros podem "dar para o mundo uma
grande lição de solidariedade" e pediu "aos que possuem mais recursos,
às autoridades públicas e a todas as pessoas de boa vontade
comprometidas com a justiça social" que "não se cansem de trabalhar por
um mundo mais justo e mais solidário".
"Quero encorajar os esforços que a sociedade brasileira tem feito para
integrar todas as partes do seu corpo, incluindo as mais sofridas e
necessitadas, através do combate à fome e à miséria. Nenhum esforço de
'pacificação' será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma
sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia
parte de si mesma", disse.
'Somos pobres, pequenos, esquecidos'
Francisco ouviu com atenção o discurso de boas vindas de um jovem de
Varginha, que disse que a visita à comunidade marcará a vida de todos os
moradores. "A sua vida, Pai Francisco, nos levou à mídia nacional e
internacional", afirmou o jovem, "mas desta vez não nas páginas
policiais". Ele lembrou que, depois do anúncio de que o Papa visitaria
Varginha, ruas foram asfaltadas, lixeiras foram melhor distribuídas e
outras melhorias foram feitas. "Esperamos que isso continue", disse ele.
"Somos pobres, pequenos, esquecidos", afirmou o jovem da comunidade.
Próximos compromissos
À tarde, o Papa vai encontrar conterrâneos argentinos na Catedral
Metropolitana, por volta das 12h30. Depois, Francisco vai à Copacabana
para o segundo ato central da Jornada Mundial da Juventude. De
helicóptero, ele deve desembarcar no Forte de Copacabana e, de
papamóvel, vai do Posto 6 até o Leme. No palco construído para o evento,
o pontífice vai realizar a acolhida aos jovens, com benção e discurso.
Confira a íntegra do discurso do Papa Francisco:
Queridos irmãos e irmãs,
Que bom poder estar com vocês aqui! Desde o início, quando
planejava a minha visita ao Brasil, o meu desejo era poder visitar todos
os bairros deste País. Queria bater em cada porta, dizer "bom dia",
pedir um copo de água fresca, beber um "cafezinho", falar como a amigos
de casa, ouvir o coração de cada um, dos pais, dos filhos, dos avós...
Mas o Brasil é
tão grande! Não é possível bater em todas as portas! Então escolhi vir
aqui, visitar a Comunidade de vocês que hoje representa todos os bairros
do Brasil. Como é bom ser bem acolhido, com amor, generosidade,
alegria! Basta ver como vocês decoraram as ruas da Comunidade; isso é
também um sinal do carinho que nasce do coração de vocês, do coração dos
brasileiros, que está em festa! Muito obrigado a cada um de vocês pela
linda acolhida! Agradeço a Dom Orani Tempesta e ao casal Rangler e Joana
pelas suas belas palavras.
Desde o primeiro instante em que toquei as terras brasileiras e
também aqui junto de vocês, me sinto acolhido. E é importante saber
acolher; é algo mais bonito que qualquer enfeite ou decoração. Isso é
assim porque quando somos generosos acolhendo uma pessoa e partilhamos
algo com ela – um pouco de comida, um lugar na nossa casa, o nosso tempo
-
não ficamos mais pobres, mas enriquecemos. Sei bem que quando alguém
que precisa comer bate na sua porta, vocês sempre dão um jeito de
compartilhar a comida: como diz o ditado, sempre se pode “colocar mais
água no feijão”! E vocês fazem isto com amor, mostrando que a verdadeira
riqueza não está nas coisas, mas no coração! E povo brasileiro,
sobretudo as pessoas mais simples, pode dar para o mundo uma grande
lição de solidariedade, que é uma palavra frequentemente esquecida ou
silenciada, porque é incômoda. Queria lançar um apelo a todos os que
possuem mais recursos, às autoridades públicas e a todas as pessoas de
boa vontade comprometidas com a justiça social: Não se cansem de
trabalhar por um mundo mais justo e mais solidário! Ninguém pode
permanecer insensível às desigualdades que ainda existem no mundo! Cada
um, na medida das próprias possibilidades e responsabilidades, saiba dar
a sua contribuição para acabar com tantas injustiças sociais! Não é a
cultura do egoísmo, do individualismo, que frequentemente regula a nossa
sociedade, aquela que constrói e conduz a um mundo mais habitável, mas
sim a cultura da solidariedade; ver no outro não um concorrente ou um
número, mas um irmão. Quero encorajar os esforços que a sociedade
brasileira tem feito para integrar todas as partes do seu corpo,
incluindo as mais sofridas e necessitadas, através do combate à fome e à
miséria. Nenhum esforço de "pacificação" será duradouro, não haverá
harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem,
que abandona na periferia parte de si mesma. "Não deixemos
entrar no nosso coração a cultura do descartável. Não deixemos entrar no
nosso coração a cultura do descartável, porque nós somos irmãos,
ninguém é descartável". Uma sociedade assim simplesmente
empobrece a si mesma; antes, perde algo de essencial para si mesma.
Lembremo-nos sempre: somente quando se é capaz de compartilhar é que se
enriquece de verdade; tudo aquilo que se compartilha se multiplica! A
medida da grandeza de uma sociedade é dada pelo modo como esta trata os
mais
necessitados, quem não tem outra coisa senão a sua pobreza!
Queria dizer-lhes também que a Igreja, «advogada da justiça e
defensora dos pobres diante das intoleráveis desigualdades sociais e
econômicas, que clamam ao céu» (Documento de Aparecida,
395), deseja oferecer a sua colaboração em todas as iniciativas que
signifiquem um autêntico desenvolvimento do homem todo e de todo o
homem. Queridos amigos, certamente é necessário dar o pão a quem tem
fome; é um ato de justiça. Mas existe também uma fome mais profunda, a
fome de uma felicidade que só Deus pode saciar. Não existe verdadeira
promoção do bem-comum, nem verdadeiro desenvolvimento do homem, quando
se ignoram os pilares fundamentais que sustentam uma nação, os seus bens
imateriais: a vida, que é dom de Deus, um valor que deve ser sempre
tutelado e promovido; a família, fundamento da convivência e remédio
contra a desagregação social; a educação integral, que não se reduz a
uma simples transmissão de informações com o fim de gerar lucro; a
saúde, que deve buscar o bem-estar integral da pessoa, incluindo a
dimensão espiritual, que é essencial para o equilíbrio humano e uma
convivência saudável; a segurança, na convicção de que a violência só
pode ser vencida a partir da mudança do coração humano.
Queria dizer uma última coisa. Aqui, como em todo o Brasil, há
muitos jovens. Vocês, queridos jovens, possuem uma sensibilidade
especial frente às injustiças, mas muitas vezes se desiludem com
notícias que falam de corrupção, com pessoas que, em vez de buscar o bem
comum, procuram o seu próprio benefício. Também para vocês e para todas
as pessoas
repito: nunca desanimem, não percam a confiança, não deixem que se
apague a esperança. A realidade pode mudar, o homem pode mudar. Procurem
ser vocês os primeiros a praticar o bem, a não se acostumarem ao mal,
mas a vencê-lo. A Igreja está ao lado de vocês, trazendo-lhes o bem
precioso da fé, de Jesus Cristo, que veio «para que todos tenham vida, e
vida em abundância» (Jo 10,10).
Hoje a todos vocês, especialmente aos moradores dessa Comunidade de
Varginha, quero dizer: Vocês não estão sozinhos, a Igreja está com
vocês, o Papa está com vocês. Levo a cada um no meu coração e faço
minhas as intenções que vocês carregam no seu íntimo: os agradecimentos
pelas alegrias, os pedidos de ajuda nas dificuldades, o desejo de
consolação
nos momentos de tristeza e sofrimento. Tudo isso confio à intercessão
de Nossa Senhora Aparecida, Mãe de todos os pobres do Brasil, e com
grande carinho lhes concedo a minha Bênção.